XXII FESTA
DO TEATRO
2020
Silêncio. Aqueles minutos antes de se iniciar um espectáculo. Aquela pausa em cena. Aquele momento antes de batermos palmas. Estes pequenos momentos foram esticados à escala de uma pandemia em momentos de quarentena, os “entre algo”, em que aguardámos o desconhecido.
Estranha nostalgia. Infelizmente, aqui o desconhecido, à excepção do vírus que se demonstrou mais inesperado do que imaginámos, tornou-se estranhamente familiar. Apercebemo-nos que já tínhamos passado por algo semelhante, que talvez até, nunca daqui tenhamos saído. Uma economia nacional frágil, um sistema insustentável fazem-nos contar não apenas os números de infectados, mas os números do lay-off, dos recibos verdes, dos desempregados, dos sem-abrigo.
Introspecção. Queremos voltar a pisar o palco, tocar, abraçar. Tirar as máscaras, que agora se tornaram tão mais simbólicas. Mas apercebemo-nos de novo que as coisas não são assim tão simples, que o que damos por garantido tem de ser repensado, e que a nossa vida continua a ser vivida “abaixo das nossas possibilidades”. Olhamos então para dentro, e à nossa volta, com um olhar crítico que devolvemos com acção.
Solidariedade. Muitos dos “números” que referimos acima, somos nós, são colegas e amigos nossos. O que pode fazer uma companhia de Teatro em Setúbal? Pode tanto quanto couber no nosso coração. O Festival Internacional de Teatro de Setúbal é feito também por quem nos tem acompanhado, seja durante a Festa do Teatro ou nas diversas produções do TEF, este ano em particular incluímos na nossa programação e equipa trabalhadores das artes da nossa comunidade para os quais que possamos contribuir um pouco mais na sua sustentabilidade. Comunidade essa para a qual nos viramos, criando este ano 22 vídeos, assinalando as nossas 22 Edições, com comércio local (locais a visitar), criando assim uma rota representativa do Festival para o local em que se insere.
Ao fim de 22 Edições, o Teatro Estúdio Fontenova e o Festival Internacional de Teatro de Setúbal guardam memórias diversas: peripécias artísticas; constrangimentos económicos; decisões e mudanças políticas. A memória de 2020 manter-se-á e, queremos acreditar, que em parceria com o Município de Setúbal, co-organizador do Festival, a Festa do Teatro se realizará com o mesmo espírito de família na qual crescemos.
Não é por acaso que a abertura do Festival este ano conta com o grupo Fado Bicha, que tão bem tem denunciado o racismo, fascismo, homofobia e outros “ismos” e “fobias” da nossa sociedade, que inclui umas conversas de teatro que nos farão questionar o momento presente e o futuro, e que encerra com o espectáculo “Damas da Noite, uma Farsa de Elmano Sancho”, questionando a nossa própria identidade.
Menos é mais. Nem sempre a quantidade é representativa de qualidade. Reunimo-nos este ano à volta de uma Secção Oficial com menos companhias, maioritariamente nacionais e uma Secção Off reduzida. No entanto, nunca tanto como este ano valorizámos o diálogo e a escuta. Procurámos saber como estávamos e do que precisávamos, do que podíamos fazer por quem está mais próximo.
Do norte ao sul do país, várias são as companhias que integrarão o programa, algumas trazendo uma estreia (Hotel Europa), outras marcando presença pela primeira vez no Festival (Teatro do Noroeste, Teatro Extremo e Companhia Mascarenhas-Martins).
Considerando o trabalho integral do Festival, mas também o de cuidarmos de nós mesmos a vários níveis, incluímos este ano a Exposição “Vozes que Pulsam”, trabalho de Paula Moita em diálogo com utentes da Associação Fernando Ilharco, assim como a manufactura e venda de máscaras alternativas que poderemos personalizar, contando com design da mesma artista. Manteremos o foco na sustentabilidade, disponibilizando garrafas de alumínio reutilizáveis, substituindo as de plástico, para a equipa do Festival e entidades acolhidas, assim como identificadores reutilizáveis.
Queremo-nos lembrar da vida que nos rodeia e lembramos as palavras do cantor Cubano Silvio Rodriguez, que em La Maza, questiona do que seria ele (e cada um de nós) se não acreditássemos no que nos faz viver:
“Si no creyera en lo más duro, Si no creyera en el deseo, Se no creyera en lo que creo, Si no creyera en algo puro, Si no creyera en quien me escucha, Si no creyera en lo que duele, Si no creyera en lo que quede, Si no creyera en lo que lucha, Qué cosa fuera, Qué cosa fuera la maza sin cantera”, não acreditaríamos no que nos faz viver.
Gratas e gratos por nos escutarem e estarem presentes.
De 21 a 29 de Agosto a festa faz-se,
A Festa Faz-se!
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